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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Sobre as distinções entre Educação, Formação Humana e Espiritualidade

Como afirmei em meu Post anterior, gostaria de enfatizar neste Post as diferenças, a despeito das aproximações, entre as ideias de formação humana, educação e espiritualidade.

A expressão Formação Humana alude à ideia de que a humanização é um processo. Nosso nascimento biológico e mesmo as diversas formas de socialização universalmente disponíveis não são, de per si, uma garantia de sua realização. Ao contrário, é imperiosa a existência de uma processual orientação do ser humano para tal finalidade, porém não de modo impositivo. É objetivo intrínseco de tal formação que ao longo desse desenvolvimento, possa o ser humano singular paulatinamente abraçar de forma autônoma e livre tal ideal formativo e dar-lhe continuidade de um modo próprio. Ao assim fazer, com o concurso de outros seres humanos também assim comprometidos, torna-se possível o surgimento e estruturação de vínculos, relacionamentos e mesmo espaços sociais favoráveis ao cultivo dessa própria formação. A formação humana implica a noção de que o homem seja capaz de tornar-se íntimo de si, de sua corporeidade, de seu comportamento, impulsos, emoções, sentimentos e do seu pensamento, compreendendo a estrutura, dinâmica e interdependência de tais aspectos, tanto na forma particularíssima como se manifestam no âmbito pessoal quanto nas variadas formas de expressão nos outros seres humanos. Tal compreensão é alargada pelo surgimento de um modo próprio de viver que se constitui pelo reconhecimento dignificante expresso em relação aos outros seres humanos e à natureza envolvente, de modo a se concretizar em atitudes de compromisso, respeito e cuidado nos âmbitos pessoais, interpessoais, comunitários, sociais, naturais e ambientais. Em síntese, a ideia de formação humana implica a crescente unificação de uma pessoa consigo mesma, processo por meio do qual também aumenta o senso de interdependência em relação aos demais seres, o que se traduz pelo declínio continuado da destrutividade e cultivo progressivo das atitudes de amor, abertura e sabedoria em meio ao mundo.

De acordo com o exposto acima, a formação humana é um processo de humanização que, por sua característica ampla, em conformidade com os diversos aspectos humanos que precisam ser humanizados, acontece em diversos espaços e contextos humanos, podendo se expressar na cultura (em sentido lato e stricto), na política, na religião, nas atividades referentes à saúde, na educação, na sociedade em geral, desde que estes se caracterizem pelos princípios e objetivos acima aludidos.

Quanto à ideia de educação, concebo-a como o processo que é dirigido e organizado intencionalmente por alguém ou por alguma organização em relação a outrem, com o objetivo de promover sua formação humana, tendo em vista sua condição e estágio específico de desenvolvimento. De acordo com o precedente, a ação educativa deve se pautar por características e limites cuja violação impede sua legitimidade como tal. A educação tem portanto por finalidade, ainda que quanto a aspectos determinados, a formação humana dos entes que estão sob seu cuidado. A educação, portanto, (e esta observação também é pertinente quanto à formação humana) não equivale diretamente ao processo de socialização, que sempre ocorrerá de um modo ou outro, sem necessariamente delimitar um objetivo formativo.

A educação ainda se caracteriza pela autoridade outorgada, conferida e/ou legitimada do educador em relação ao educando. Autoridade não significa ou não implica diretamente poder. No contexto educacional, seu sentido provém do termo latino auctoritas que alude à legitimidade conferida em decorrência de um saber legítimo e fundamentado. A educação, de acordo com tal sentido, não pode ser exercida sem que haja a legitimidade da autoridade que a desenvolve – justamente por isso, mais eficaz se torna à medida que maior legitimidade é reconhecida e conferida ao educador pelo próprio educando, para o que contribui imensamente a atitude de coerência e integridade do próprio educador.

A educação também se caracteriza pelo reconhecimento e respeito pela liberdade do educando, esta entendida não como a efetivação de caprichos ou simples desejos do ego, mas, sim, como princípio que o educando precisa encontrar em si e exercê-lo como instância capaz de orientar sua vida e condição no mundo. A liberdade do ser humano, como a busca e encontro de sua vocação no mundo, é território sagrado que deve ser respeitado pelo educador quanto à orientação dos seus educandos. O educador precisa ajudar o educando a encontrá-la, a saber ouvi-la e a exercitá-la, sem jamais impor sua vontade.

A educação também implica desenvolvimento de habilidades (como as diversas inteligências de que trata Howard Gardner), por meio de cujo domínio e apropriação as qualidades formativas humanas podem se expressar.

Por fim, compreendemos a espiritualidade como o entendimento, a vivência e o comprometimento com a realidade última que define o humano em sua relação consigo mesmo e com o Ser. Nesse sentido, a espiritualidade se expressa (não se constitui por, mas se manifesta) pela compreensão racional, pela experiência singular e pessoal, e pelo compromisso existencial com os princípios que se fundamentam naquilo que se revela na experiência pessoal. Portanto, a espiritualidade sempre se expressa por meio de valores como cuidado, atenção, compaixão, inteireza, equanimidade, destemor. Em decorrência do exposto, compreendo que a espiritualidade leva necessariamente ao entendimento de e ao compromisso com a formação humana em seus diversos aspectos. A formação humana, entretanto, pode vir a ser exercida sem que alguns dos aspectos constitutivos da espiritualidade tenham sido realizados. Assim, a título de exemplo, alguém que ignora por completo ou descrê de qualquer relação entre o ente humano e o Ser em geral, pode, entretanto, demonstrar-se comprometido com a formação humana. Todavia, no meu entendimento, por menor que seja, tal pessoa expressa de algum modo uma realização espiritual. Por outro lado, é para mim inconcebível que a espiritualidade não se expresse em formação humana. Neste caso, compreendo que este é um critério fundamental para desmascarar a espiritualidade que alardeia a si mesma, mas que não frutifica em meio ao mundo.

Em resumo, penso que a espiritualidade necessariamente se expressa na formação humana, embora esta não tenha que explicitamente remeter à primeira. Por outro lado, concebo a educação como parte da formação humana, sendo esta mais ampla que a primeira. Por fim, a espiritualidade que viola a formação humana denuncia a si mesma por aquilo que não é.

José Policarpo Jr.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Formação Humana, Espiritualidade e Filosofia da Educação

Os termos que intitulam este post serão temas de três eventos parcialmente simultâneos que ocorrerão em setembro ou outubro de 2012, na cidade do Recife, em datas e local a serem confirmados em breve.

Os eventos – I Encontro Internacional de Formação Humana, I Encontro Internacional de Educação e Espiritualidade e o VI Encontro de Filosofia da Educação do Norte e Nordeste – serão promovidos, respectivamente, pelo Instituto de Formação Humana, pelos Núcleos de Educação e Espiritualidade e de Teoria e História da Educação do Programa de Pós-graduação em Educação da UFPE.

Por meio da realização conjunta desses três eventos, estaremos dando um passo fundamental no sentido do processo de consolidação científico-acadêmica das áreas da Formação Humana e da Espiritualidade, assim como evidenciando liames entre estas e a Educação e Filosofia – em outro post iremos tratar especificamente da relação entre tais áreas.

O campo da Formação Humana, como área de estudo, pesquisa e extensão, é ainda incipiente no Brasil. Como toda área emergente, ela surge como campo interdisciplinar, visto que toma por objeto algo que até então se situava em zonas fronteiriças de outros campos disciplinares. O surgimento dessa área e o esforço por sua consolidação acadêmico-científica se devem às necessidades evidenciadas pela própria realidade que se expressa na vida social, cultural e política de nossa sociedade.


Os diversos fenômenos de violência física, institucional, simbólica e linguística que acontecem em vários setores sociais (escolas, famílias, comunidades, instituições estatais e privadas, espaço urbano, etc.) de forma sistemática, assim como a dificuldade em se promover o desenvolvimento humano, social e econômico de forma articulada, além do desafio de fazer com que as pessoas venham a se comprometer integralmente com a formação de si mesmas por meio da orientação lúcida e significativa de suas vidas, tudo isso demonstra que a atual divisão que se impõe às instituições, políticas públicas e ao campo científico, entre educação e demais ciências do homem, ciências da saúde, comunicação e ciências sociais, não consegue compreender, promover, nem realizar aquilo que constitui o cerne do que aqui nomeamos por formação humana. Para melhor entendimento desta temática, clique aqui.



O campo da espiritualidade, considerado isoladamente ou em relação à educação, não é um campo emergente, visto que se constitui tema de reflexão e experiência milenares para determinados setores sociais e tradições filosóficas, místicas e religiosas. Os obstáculos que se impõem à consolidação acadêmica, teórica e científica dessa área se devem a razões históricas, sociais e de modelos civilizatórios que impuseram o rótulo de metafísico e religioso a todo conteúdo de experiência que não pudesse se traduzir diretamente nos modelos da ciência clássica, nem pudesse se reduzir exclusivamente ao âmbito intelectual-discursivo que caracteriza hegemonicamente a filosofia na era moderna. A lucidez e a profundidade dos insights sobre o ser humano e o Ser em geral, assim como o discernimento que daí deriva e se aplica à condução da vida humana em sua amplitude, jamais deixaram de existir apesar do veto da comunidade científica à admissão em seu meio. A própria história da educação ilustra a articulação deste campo com a espiritualidade em diversos contextos e momentos históricos. Durante as últimas décadas, diversos cientistas e renomados representantes de tradições espirituais vêm estabelecendo diálogos frutíferos e profundos à contribuição recíproca entre ciência e espiritualidade – o instituto Mind and Life é exemplo de iniciativa desse tipo. Considerando, portanto, que a educação é intrinsecamente um campo de saber e prática relativo ao ser humano, torna-se compreensível a relevância do diálogo entre os saberes e experiências que emanam da espiritualidade e da educação. Não temos dúvida, portanto, da relevância desse I Encontro Internacional de Educação e Espiritualidade.

Por fim, mas não em menor conta, o campo da Filosofia da Educação, subárea já consolidada no campo educacional, se expressa de modo plural, com todas as tendências filosóficas do espírito humano relativas à educação, mas não de modo avesso às compreensões relativas às temáticas anteriores. Aliás, foi por intermédio da expressão neste campo que várias das pessoas que trabalham na organização destes eventos puderam transitar para as temáticas da formação humana e da espiritualidade. Estaremos, na ocasião, dando continuidade à trajetória frutífera e enriquecedora da Filosofia da Educação nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, por meio deste encontro que já está em sua VI edição.


Iremos continuar a divulgar informações sobre os eventos neste blog.


José Policarpo Junior
Diretor-presidente do IFH e professor do Núcleo de Educação e Espiritualidade da Pós-graduação em Educação da UFPE

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O Instituto de Formação Humana - IFH, realizará, no segundo semestre de 2012, o I Encontro Internacional sobre Formação Humana.
O encontro se caracterizará pela presença de especialistas internacionais convidados e por apresentações e diálogos de cientistas nacionais e internacionais na área da formação humana.
Pretendemos realizar este evento a cada dois anos.
Informações atualizadas sobre o evento (tais como inscrições, período, local, investimento, etc.) serão sempre postadas neste blog e em nossa página.
Se desejar manter-se informado sobre esta e outras notícias relativas ao IFH, registre-se em nossa lista.