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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Convicção

Por Ferdinand Röhr

Nietzsche inicia a “Nona parte principal”, intitulada “O Homem consigo mesmo”, da sua obra “Humano Demasiado Humano, parte I”, com o aforismo n° 483, intitulado “Inimigos da Verdade”. Trata-se de apenas uma frase: “Convicções são inimigas mais perigosas da verdade que as mentiras”.

Escrever em aforismos foi uma opção intencional a fim de expressar sua aversão a argumentações racionais, sistemáticas e conclusivas. “Humano Demasiado Humano” foi a primeira obra em que ele se utilizou exclusivamente desse tipo de escrito. Uma das consequências da forma literária dos aforismos é a dificuldade de submetê-los a uma crítica pertinente. Porém, diante do modismo de usar aforismos nietzschianos como argumento em discussões acadêmicas, não dispensaremos uma análise crítica dos mesmos – no nosso caso, do aforismo mencionado.

Não podemos compreender adequadamente esse aforismo se não partimos da visão que o próprio Nietzsche tem da verdade. Para ele, não existe uma verdade última, eterna, única, válida universalmente. Nietzsche somente admite verdades historicamente localizadas, portanto relativas à situação, ao tempo, à localidade, à cultura, enfim, todas as verdades são relativas. Convicções, ao contrário, expressam uma pretensão de verdades válidas de forma incondicional, logo, inimigas da visão da verdade como relativa. Nietzsche expressa o grau de periculosidade desse inimigo na comparação com a mentira. A convicção é mais perigosa do que a mentira. Certamente, Nietzsche chega a essa conclusão porque existe a possibilidade de desvendar as mentiras e confirmar as verdades parciais. Isso não é possível em relação às convicções, pelo menos na visão que o próprio Nietzsche tem das mesmas.

Nos aforismos 629 – 638, entendemos mais claramente o que o nosso autor compreende por convicção. No aforismo 637, ele sintetiza: “Das p a i x õ e s brotam as opiniões, a  i n d o l ê n c i a  d o e s p í r i t o as faz entorpecer enquanto c o n v i c ç õ e s”. De acordo com essa compreensão, as nossas paixões, na qualidade de estados emocionais extremados, levam o homem a fazer afirmações que assumem o lugar de uma verdade inquestionável, uma convicção. Esta, historicamente, assume formas de credos religiosos, políticos e sociais que se confrontam, não raras vezes, com brutal violência. O que possibilita a crença irrestrita numa convicção é unicamente a indolência do espírito, no sentido de intelecto humano. Usando o intelecto, seria possível, na visão de Nietzsche, demonstrar em cada caso de convicção, que ela está baseada em pressupostos restritos, históricos e, portanto, não generalizáveis. O desejável para Nietzsche é que os homens aprendam a abandonar convicções, passando por várias delas  até perceber, enfim,  que é possível e mais adequado viver sem elas.

Poderíamos depositar mais credibilidade na convicção nietzschiana de encontrar no relativismo a fórmula para uma vida mais pacífica, se o próprio Nietzsche não houvesse enveredado numa luta discriminatória e violenta (em termos literários, a fragilidade física não permitiu outras formas) contra representantes de convicções diferentes da dele, principalmente do cristianismo. Só para dar um exemplo: na quinta sentença da “Lei contra o Cristianismo. Guerra mortal contra o vício: o vício é o cristianismo”, que se encontra no fim do “Anticristo”, Nietzsche afirma que “sentar-se com um sacerdote na mesma mesa, exclui. Com isso, excomunga- se a si mesmo da sociedade honrada. O sacerdote é o  n o s s o Tschandala (excluído, no sistema de castas na Índia antiga). Deve-se proscrevê-los, esfomeá-los, empurrá-los para qualquer tipo de deserto.” Afirmações desse tipo, que encontramos em grande número na obra de Nietzsche, revelam que a crença de Nietzsche na força humanizadora do relativismo tem a mesma origem na paixão, como as convicções que ele ataca. Quem não concorda, torna-se inimigo mortal.

Pergunta-se, portanto: somos condenados ao dogmatismo e à intolerância, tanto acreditando na verdade absoluta quanto na relatividade absoluta dela?

Mantemo-nos reféns dessas alternativas somente quando não questionamos os dois pressupostos básicos do pensamento de Nietzsche: O da não existência da verdade absoluta e o de que a paixão é o fundamento da convicção. Na primeira questão, podemos pensar na possibilidade da existência de uma verdade absoluta e, ao mesmo tempo, reconhecer que o homem, ao máximo, pode aproximar-se dela, mas não possuí-la. Essa é a posição de Sócrates, que o próprio Nietzsche combate com tanta violência. Em comum, a crença que em relação à verdade só existe a busca dela. O que os diferencia é que em Sócrates a busca tem uma direção determinada que seria a verdade em si, o que se torna impossível quando se acredita na inexistência dela. Mais ainda, se as certezas alcançadas no caminho não são de validade universal, será que elas não podem ser de validade individual, e mesmo assim assumir um sentido incondicional para esse individuo? Será que não podemos fazer a distinção entre dois tipos de convicção? Uma dogmática e impositiva, que tem sua origem em desequilíbrios emocionais, em relação à qual as críticas de Nietzsche são pertinentes, e uma outra que tem uma fonte que nem é irracional nem racional, mas suprarracional, conduzindo a uma atitude contrária ao dogmatismo, intolerância e violência. Consistiria em uma fonte íntima, no próprio ser humano, que indicaria quais valores e verdades correspondem a ele mesmo e quais as opções que o tornam sempre mais autêntico consigo, bem como os momentos em que tem certeza absoluta, que não pode optar diferentemente sem perder a si mesmo.

Decerto que temos de tratar tais momentos com um máximo de criticidade e retidão diante de nós mesmos. As que se sustentam na vida vivida podemos considerar convicções pessoais, capazes de orientar a nossa vida. Reconhecemos essas na sua característica principal: quem as tem, sabe que não são transferíveis. Tornar-se-ia convicção para o outro somente se ele passasse pelo mesmo processo difícil e doloroso de conquistar a mesma certeza em si.

Óbvio que Nietzsche não fez uma experiência desse tipo. Suspeitava motivações egoístas camufladas em cada sacrifício em prol das convicções dos outros. Isso pode ser verdade nas convicções baseadas em paixões. Sem dúvida, trata-se disso em muitos mártires que tinham como única motivação ganhar a vida eterna, ou nos homens-bomba, nos quais além da fé religiosa prevalece o ódio mortal diante do inimigo. Não acreditamos que esse seja o caso de Sócrates quando aceita sua morte, por considerar que é melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma; de Gandhi, quando segue o princípio da não-violência, mesmo prevendo um possível atentado; da juíza Patrícia Acioli, que não abandonou a luta por justiça, ante policiais corruptos, sacrificando a própria vida; ou, enfim, dos inúmeros anônimos que se põem em risco, de uma ou outra forma, por convicção – isenta de interesses egoístas –, certos de que vale a pena o engajamento por um mundo melhor.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sobre Steve Jobs

Para mim – e certamente para milhões de pessoas – o mundo perdeu no dia de ontem (05/10/2011) alguém cuja vida trouxe grande contribuição à humanidade. Mais do que todos os produtos trazidos ao mundo por meio da inventividade e liderança de Steve Jobs, para mim sua maior contribuição consistiu em buscar sempre a melhoria da vida e das relações humanas por meio da contribuição tecnológica que suas mente e companhia podiam dar.

Jobs ganhou muito dinheiro, mas o fez não pela obsessão de ganhar dinheiro, mas de seguir o que sua intuição e seu coração orientavam. O dinheiro veio, mas ele mesmo soube abrir mão dele algumas vezes em prol de não abdicar dos seus sonhos, muitos dos quais compartilhados com boa parte da humanidade.

Acredito que Jobs tenha sido uma pessoa comum, com vícios e virtudes, mas acho que certamente foi alguém que soube canalizar suas potencialidades, tenacidade, coragem, inteligência e criatividade para coisas úteis que melhoraram o mundo. Ele ofereceu ao mundo o que podia e sabia dar e o fez de modo muito apropriado – não escondeu seu talento, mas o empregou bem e colheu bons frutos.

O mundo precisa de empreendedores dessa natureza.

Em sua homenagem, e desejando que sua mente reconheça a luz que tudo faz ver e emergir, faço abaixo o link para a música de outro inesquecível de muitos, George Harrison.

José Policarpo Jr.