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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Curso de Aperfeiçoamento em Formação Humana


por José Policarpo Junior

O Instituto de Formação Humana oferece pela primeira vez, neste ano de 2017, o curso de aperfeiçoamento em formação humana, cujo pré-requisito é a graduação em qualquer curso de nível superior. As inscrições se encontram abertas e as informações a respeito do curso podem ser consultadas neste link (curso cancelado).

O propósito deste post, no entanto, é apresentar, com brevidade, uma introdução à ideia de formação humana e a razão de ser desse curso – de fato, não se pode aqui ir além disso, posto que as 180 horas do curso se destinam precipuamente a esse fim.
Há vários modos de pensar a formação humana, não havendo possivelmente teoria que concorde total e plenamente com outra a esse respeito, justamente por uma questão fundamental: trata-se de um saber e uma meta em relação aos quais ninguém detém plenitude de realização. Aliás, este é um dos argumentos que pode ser utilizado contra a admissibilidade do referido conceito: se ninguém detém saber pleno sobre tal assunto, o que cada um falar a respeito expressará apenas sua opinião sem qualquer pretensão de fundamento ou legitimidade específica. Todavia, se fôssemos adotar tal critério como definidor das reflexões que podem ou não ser feitas, teríamos que certamente desistir de todo e qualquer saber – excetuando-se talvez parte dos saberes matemáticos que expressam uma certeza apodítica – na medida em que não há, em campo algum, conhecimentos plenos e seguros. A própria ciência está assentada no princípio admitido a priori da provisoriedade de todo e qualquer conhecimento – não há absolutos na ciência, embora alguns cientistas vez por outra se esqueçam desse ponto fundamental. Portanto, não consideramos justo que se deslegitime a reflexão sobre a formação humana tão somente porque não tenhamos conhecimento pleno e conclusivo sobre a mesma.
Do reconhecimento da inexistência de saber exaustivo não se segue todavia a negação de todo e qualquer conhecimento sobre a formação humana. Nossos conhecimentos são provisórios, como afirma a ciência, mas é preciso ressaltar– especialmente quanto à natureza de fenômenos que escapam à manipulação do homem – que eles também são aproximados. A título de exemplo, ninguém nunca tocou ou provou empiricamente a existência do inconsciente humano, mas ninguém suficientemente esclarecido poderia negar nos dias de hoje a existência desse fenômeno a que a psicanálise denominou de inconsciente, por mais que a própria teoria psicanalítica não possa ser exaustiva a respeito do mesmo. Dessa forma, afirmar a existência e modo de atuação do inconsciente, por mais impreciso que tal conhecimento venha a ser, é algo muito mais apropriado do que negar ou desconhecer sua existência. Aplicamos esse mesmo entendimento à formação humana.
Ao contrário do que imagina boa parte do senso comum, formar-se humanamente não é resultado de um processo automático ou aleatório. Tal formação depende da intencionalidade, compreensão e determinação com que aquela é buscada. A socialização primária, o processo de escolarização e as diversas outras práticas de socialização secundária não são suficientes e garantidoras da formação humana. Logo, tal formação não é destino do ser humano, nem pessoal nem socialmente.
A formação humana depende pois de compreensão minimamente razoável do Ser do ser humano. Nos limites deste post não temos condição de apresentar em detalhe uma tal compreensão; entretanto, tentaremos apresentar uma síntese.
O ser humano não é um dado da natureza, mas um tipo de ser entre outros seres que expressam o Ser. A ausência de tal compreensão, entre outros aspectos, permite que se reduza o ser humano ao nível de matéria, elemento de manipulação ou simples objeto. Certamente o ser humano possui também dimensão de objeto e de matéria, sem a isto se reduzir em absoluto.
O ser humano é uma expressão do Ser em suas dimensões corpórea, senciente (interior e exteriormente), pensante, relacional, sócio-histórica e genérica.
O ser humano é, portanto, simultaneamente: (a) um ser da natureza, pois seu gênero dela brotou e não pode existir senão em relação determinada com a mesma; (b) um ser material que depende de processos físicos e químicos que se regem por leis parcialmente conhecidas pelo ser humano; (c) um ser biológico, submetido a uma organização determinada da matéria que possibilita a emergência de um processo vital sustentado por relações múltiplas entre órgãos; (d) um ser particular que se estrutura por meio de sínteses progressivamente singulares entre suas dimensões corpórea, senciente e pensante; (e) um ser pessoal que, por seu espírito ou autoconsciência interior, dirige a integração possível entre as diversas dimensões de seu ser, bem como projeta e elege sua vida diante das condições que se lhe defrontam e que não pode manipular a seu bel-prazer; (f) um ser social e histórico que não pode viver, sob pena de sofrer grandes prejuízos advindos da alienação e isolamento, senão entre outros seres humanos em uma configuração social em determinado espaço e tempo.
Por sua própria constituição, o ser humano necessita, portanto, desenvolver-se em relação com a natureza, em sua estrutura físico-somática, em sua integração corpo-emoção-pensamento, em clareza e discernimento espiritual quanto ao seu ser, sua própria vida e sua participação no mundo com os demais seres humanos. A maior parte de todo esse desenvolvimento depende de orientação que se inicia exteriormente e deve se tornar progressivamente interior e autoconsciente. A educação pode participar da formação humana e, no sentido estrito aqui apontado, deve tê-la por escopo, mas a última não se limita à primeira. A formação humana é mais ampla que a educação.
Formar-se humanamente é, portanto, um processo integral da pessoa consigo mesma, mas tendo sempre por meta a transcendência de si em direção ao outro, à sociedade, ao mundo, ou a uma causa; não é, nem pode ser, um processo de autocentramento. Dependemos de início do contexto vivencial imediato e da orientação de pessoas afetivamente referentes, até que possamos nos tornar pessoalmente comprometidos com o cultivo e direção formativos.
Embora não tenhamos saber pleno sobre esse processo, uma vez que vastas áreas da natureza do ser humano jazem sob o mistério, há diversas fontes disponíveis de conhecimento e formação nas grandes tradições espirituais, em práticas terapêuticas ancestrais, nas tradições teóricas da filosofia, da educação, da psicologia e da medicina, bem como na investigação científica. A compreensão articulada de tais fontes é tarefa da formação humana como ciência e prática.
Reconhecemos que o saber a que se faz referência aqui não é disseminado nem popular. Essa compreensão enfrenta obstáculos epistemológicos e institucionais, mas também de natureza pessoal e ideológica. Embora não tenhamos condição de tratar de todos esses aspectos aqui, gostaríamos de mencionar, apenas superficialmente, dois obstáculos de monta para que a formação humana possa se tornar acessível e efetiva.
O primeiro deles refere-se ao fundamentalismo científico-cultural do materialismo predominante nos paradigmas epistemológicos e científicos. Tal fundamentalismo se exerce indiretamente pelo fortalecimento de princípios que consideram os fenômenos como de natureza exclusivamente material. Não importa, do ponto de vista de sua influência, que aqueles princípios jamais tenham sido provados por critérios de prova admitidos pela própria ciência. Esta, portanto, se configura em seus axiomas por balizas que não são legitimadas por seus próprios princípios constitutivos. Trata-se, portanto, de dogmas. Uma vez que a formação humana reconhece e compreende o ser humano como uma expressão específica do Ser, com algumas dimensões próprias irredutíveis ao substrato material, não pode gozar, portanto, da aprovação do paradigma epistemológico dominante nas ciências estabelecidas. Desse modo, a existência da formação humana no âmbito acadêmico é, por si mesma, uma presença contra-hegemônica.
O segundo obstáculo, de amplitude não menor que o anterior, refere-se à natureza pessoal e apropriada do saber formativo. A formação humana não se realiza apenas mediante conhecimento teórico-intelectual. Trata-se de um tipo de saber que se realiza mediante tendência à congruência entre diferentes dimensões constituintes do ser humano anteriormente mencionadas. Tal saber é portanto de natureza incorporada e vivencial. Ora, um saber de tal natureza não pode ser alcançado, ainda que parcialmente, sem cultivo de autoconsciência, comprometimento e autodisciplina, até que, em grau minimamente satisfatório, sua expressão unificada se apresente como caráter do humano. Claro está, portanto, que essa compreensão formativa não se alcança de forma automática ou como simples derivação do processo de socialização. Necessário se faz um processo de cultivo intencional que possa vir a se tornar, por sua prática, espontâneo e livremente acolhido. Em outras palavras, trata-se de saber inseparável de vivência pessoal responsável e atenciosa. Todo ser humano particular tem, por conseguinte, a prerrogativa de recusar comprometer-se com esse tipo de saber, a despeito de vir a ser o principal prejudicado por essa escolha, quer o saiba plenamente, quer não. Fica claro porque a formação humana, como um campo próprio de saber e prática, dificilmente poderá tornar-se popular.
O curso de Aperfeiçoamento em Formação Humana tem o objetivo de tratar dessa temática de modo teórico e vivencial em nove módulos que focalização aspectos diferenciados da mesma, mas todos relacionados entre si.
Para informar-se mais detalhadamente e se inscrever no referido curso, clique aqui (curso cancelado).
Sabemos que este post não é suficiente para esclarecer e fundamentar o conceito de formação humana, mas acreditamos que seja suficiente para ressaltar sua importância teórica e vivencial. Neste Blog, há vários posts que tratam diretamente da relação entre formação humana e espiritualidade, que podem ser consultados, caso seja do interesse do leitor. Exemplos: um, dois, três, quatro, cinco.